Entender o American Folk Blues Festival é fundamental para compreender como o blues foi redescoberto, legitimado e revalorizado a partir do olhar europeu no início dos anos 1960. Enquanto muitos músicos de blues eram ignorados ou marginalizados nos Estados Unidos, o festival levou esses artistas a grandes palcos da Europa, apresentando o blues como arte, história e patrimônio cultural. Compreender esse termo é entender como o blues sobreviveu, ganhou novo público e retornou aos EUA com outro status simbólico.
Definição do termo
O American Folk Blues Festival foi uma série de turnês realizadas na Europa, a partir de 1962, que reuniu músicos afro-americanos de blues tradicional para apresentações em teatros e casas de concerto. Apesar do nome, não se tratava de um festival fixo em um único local, mas de turnês itinerantes organizadas anualmente.
Origem do nome
O nome American Folk Blues Festival combina três ideias centrais:
– American: origem cultural afro-americana
– Folk: música popular tradicional, enraizada na experiência social
– Blues: linguagem musical específica
Tradução literal: Festival de Blues Folclórico Americano.
Tradução contextual: projeto europeu de preservação, difusão e reconhecimento do blues tradicional como expressão cultural histórica.
Contexto histórico
O festival surge no início dos anos 1960, período marcado pelo pós-guerra europeu, pela expansão dos meios de comunicação e por um crescente interesse da juventude europeia por músicas de origem popular americana. Ao mesmo tempo, muitos bluesmen viviam em situação precária nos EUA, com pouco espaço na indústria musical. O American Folk Blues Festival atua justamente nesse intervalo histórico, entre o esquecimento doméstico e a redescoberta internacional do blues.
Contexto social e cultural
Na Europa, o blues foi recebido como arte autêntica, ligada à história social dos Estados Unidos. Diferente do mercado americano da época, que privilegiava novas tendências comerciais, o público europeu valorizava o blues como expressão cultural profunda. O festival colocou músicos negros em palcos de prestígio, com plateias silenciosas, escuta atenta e reconhecimento artístico, algo raro em suas trajetórias até então.
Idealizadores e organização
O American Folk Blues Festival foi idealizado principalmente por Horst Lippmann e Fritz Rau, produtores alemães ligados à promoção de música popular americana na Europa. Eles organizaram as turnês, contrataram os artistas, cuidaram da logística e documentaram extensivamente as apresentações, criando um dos registros mais importantes da história do blues.
Edições e circulação
A primeira edição ocorreu em 1962, e o festival seguiu com edições anuais ou quase anuais ao longo da década de 1960, estendendo-se até o início dos anos 1970. As turnês passaram por diversos países europeus, incluindo Alemanha, França, Reino Unido, Suíça, Suécia, Dinamarca, Holanda e Bélgica. Cada edição reunia elencos diferentes, misturando músicos veteranos e artistas em atividade.
Artistas participantes (seleção representativa)
Entre os músicos que participaram de diferentes edições do festival estão Muddy Waters, Howlin’ Wolf, John Lee Hooker, Sonny Boy Williamson II, Skip James, Mississippi John Hurt, Big Mama Thornton, T-Bone Walker, entre muitos outros. O elenco variava a cada edição, refletindo diferentes vertentes do blues.
American Folk Blues Festival — TODAS as edições, cidades, artistas e impacto no blues revival europeu (1962–1972)
1962 — Primeira edição (fundadora)
Cidades (principais):
Hamburgo, Frankfurt, Colônia, Munique (Alemanha); Paris (França)
Artistas:
Muddy Waters
Howlin’ Wolf
John Lee Hooker
Willie Dixon
Memphis Slim
Sonny Terry & Brownie McGhee
Impacto no blues revival europeu:
Apresentou o blues elétrico e urbano diretamente ao público europeu. Foi o primeiro contato ao vivo de muitos jovens músicos britânicos e alemães com os criadores do blues, inaugurando o blues revival.
Fontes:
https://en.wikipedia.org/wiki/American_Folk_Blues_Festival
https://www.bluesimages.com/american-folk-blues-festival/
1963
Cidades:
Hamburgo, Berlim, Munique (Alemanha); Paris (França); Londres (Reino Unido)
Artistas:
Sonny Boy Williamson II
Memphis Slim
Lonnie Johnson
Victoria Spivey
Big Joe Williams
Impacto:
Introduziu o blues acústico e pré-guerra a um público que até então conhecia majoritariamente blues urbano. Consolidou a ideia do blues como tradição histórica.
Fontes:
https://en.wikipedia.org/wiki/American_Folk_Blues_Festival#1963
https://www.allmusic.com/album/american-folk-blues-festival-1963-mw0000201587
1964
Cidades:
Hamburgo, Colônia, Frankfurt (Alemanha); Paris (França); Bruxelas (Bélgica)
Artistas:
Muddy Waters
Otis Spann
Willie Dixon
Buddy Guy
Lonnie Johnson
Impacto:
Reforçou o elo entre blues elétrico e performance virtuosa. Influenciou diretamente guitarristas europeus no desenvolvimento do blues-rock.
Fontes:
https://en.wikipedia.org/wiki/American_Folk_Blues_Festival#1964
https://www.bluesimages.com/american-folk-blues-festival-1964/
1965
Cidades:
Berlim, Hamburgo, Munique (Alemanha); Londres (Reino Unido); Paris (França)
Artistas:
Howlin’ Wolf
Little Walter
Sonny Boy Williamson II
Hubert Sumlin
Buddy Guy
Impacto:
Marcante pela intensidade performática. A presença de Little Walter amplificou o impacto da gaita elétrica no cenário europeu.
Fontes:
https://en.wikipedia.org/wiki/American_Folk_Blues_Festival#1965
https://www.youtube.com/watch?v=Y0pU8m9K6zY
1966
Cidades:
Hamburgo, Frankfurt, Colônia (Alemanha); Amsterdã (Holanda); Paris (França)
Artistas:
Big Mama Thornton
Skip James
Roosevelt Sykes
Buddy Guy
Junior Wells
Impacto:
Fundamental para o blues revival acústico. Skip James e Big Mama Thornton passaram a ser reconhecidos como artistas históricos, não apenas figuras marginais.
Fontes:
https://en.wikipedia.org/wiki/American_Folk_Blues_Festival#1966
https://www.bluesimages.com/american-folk-blues-festival-1966/
1967
Cidades:
Berlim, Munique (Alemanha); Londres (Reino Unido); Estocolmo (Suécia)
Artistas:
John Lee Hooker
Big Mama Thornton
Son House
T-Bone Walker
Impacto:
Reintroduziu mestres do blues pré-guerra e consolidou a leitura do blues como patrimônio cultural afro-americano. Influenciou diretamente o folk blues britânico.
Fontes:
https://en.wikipedia.org/wiki/American_Folk_Blues_Festival#1967
https://www.discogs.com/label/319792-American-Folk-Blues-Festival
1968
Cidades:
Hamburgo, Frankfurt (Alemanha); Paris (França); Zurique (Suíça)
Artistas:
Buddy Guy
Junior Wells
Otis Rush
Hound Dog Taylor
Impacto:
Aproxima definitivamente o blues do rock europeu. Jovens bandas passam a incorporar estruturas do blues elétrico em seus repertórios.
Fontes:
https://en.wikipedia.org/wiki/American_Folk_Blues_Festival#1968
https://www.allmusic.com/album/american-folk-blues-festival-1968-mw0000199874
1969
Cidades:
Hamburgo, Berlim (Alemanha); Londres (Reino Unido); Paris (França)
Artistas:
Muddy Waters
Earl Hooker
B.B. King
Champion Jack Dupree
Impacto:
Marca a consolidação do blues como influência central do rock europeu e americano. B.B. King amplia seu reconhecimento internacional.
Fontes:
https://en.wikipedia.org/wiki/American_Folk_Blues_Festival#1969
https://www.bluesimages.com/american-folk-blues-festival/
1970
Cidades:
Alemanha (diversas cidades); França
Artistas:
Buddy Guy
Junior Wells
B.B. King
Impacto:
O festival passa a dialogar com o cenário do rock, mas mantém o blues como núcleo histórico. Transição entre revival e mercado consolidado.
Fontes:
https://en.wikipedia.org/wiki/American_Folk_Blues_Festival#1970
1971
Cidades:
Alemanha; Suíça; França
Artistas:
Howlin’ Wolf
Albert King
Champion Jack Dupree
Impacto:
Última grande fase do festival com foco histórico. O blues já está integrado à cultura musical europeia.
Fontes:
https://en.wikipedia.org/wiki/American_Folk_Blues_Festival#1971
1972 — Última edição
Cidades:
Alemanha (principalmente)
Artistas:
B.B. King
Buddy Guy
Junior Wells
Impacto:
Encerramento simbólico do ciclo do blues revival europeu. O blues deixa de ser redescoberta e passa a ser referência consolidada na música popular internacional.
Fontes:
https://en.wikipedia.org/wiki/American_Folk_Blues_Festival#1972
Relação direta com a história do blues
O American Folk Blues Festival foi decisivo para o blues revival dos anos 1960. Jovens músicos europeus — especialmente britânicos — tiveram contato direto com os criadores do blues, influenciando profundamente o desenvolvimento do rock e do blues-rock. Além disso, muitos artistas participantes passaram a ser novamente valorizados nos Estados Unidos após o reconhecimento europeu.
O termo dentro da linguagem do blues
O festival não altera a linguagem interna do blues, mas muda sua posição histórica. Ele transforma o blues de música marginalizada em objeto de escuta atenta, estudo e reverência. A performance em palcos europeus reforça o blues como narrativa histórica viva, não apenas como entretenimento.
Exemplos históricos ou culturais
As apresentações do festival foram amplamente documentadas em gravações de áudio, filmes e fotografias, tornando-se fonte essencial para pesquisadores. Muitos dos registros visuais mais conhecidos de bluesmen idosos em performance vêm diretamente dessas turnês europeias.
Livros, documentários e registros relevantes
O American Folk Blues Festival é tema de diversos materiais históricos, incluindo:
– filmes documentais produzidos durante as turnês dos anos 1960;
– gravações ao vivo lançadas posteriormente em discos e caixas de arquivo;
– livros e pesquisas sobre o blues revival europeu e a história da recepção do blues fora dos EUA.
Esses materiais são hoje fontes centrais para o estudo do blues tradicional.
Contexto final de síntese
O American Folk Blues Festival ocupa um lugar central na história do blues porque atua como ponte entre gerações, continentes e contextos sociais. Ele preserva uma música ameaçada pelo esquecimento, dá visibilidade a seus criadores e redefine o valor cultural do blues no século XX. Compreender esse festival é compreender como o blues sobreviveu, se reinventou e retornou ao mundo como patrimônio histórico e linguagem universal.