Tom Veras, professor especializado em blues guitarra, violão e teoria blues para todos instrumentos e voz. Aulas com contexto histórico e social do blues
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O blues costuma ser ensinado como um conjunto de desenhos no braço da guitarra ou como uma “escala mágica” que funciona sozinha. Mas, por trás do som, existe uma lógica muito clara de organização das notas, dos intervalos e das escolhas musicais. Nesta aula, você vai entender como o blues se constrói a partir do sistema básico da música tonal — oitava, graus, escala maior e menor — e como, a partir daí, surgem a pentatônica, a pentablues e a linguagem característica do estilo. O objetivo não é decorar fórmulas, mas enxergar o instrumento com mais clareza, entender por que certas notas funcionam e como transformar teoria em fraseado musical real.
O Blues não é apenas um gênero musical. É uma forma de organizar sentimentos, tempo e memória a partir da voz. Antes de qualquer estrutura harmônica, antes da canção como produto, existe o canto, o gesto sonoro, o murmúrio, a repetição insistente de um estado emocional que não se resolve. É a partir desse território — entre fala, música e experiência humana — que o Blues se constitui. Ao longo deste texto, o Blues é observado desde suas origens vocais e corporais, passando pela letra, pela relação entre canto e instrumento, pelas microafinações, pelas blue notes e pela forma cíclica que suspende o tempo. A história atravessa o trabalho, a segregação racial, o acesso a instrumentos como violão e gaita, a chegada da gravação, o impacto da tecnologia e o confronto com a indústria cultural, sem perder de vista aquilo que permanece: a centralidade da voz e do sentimento. Mais do que uma análise musical, o que se desenha aqui é uma leitura cultural do Blues como linguagem viva — uma música que não avança para um desfecho, não fecha narrativas e não promete superação. O Blues insiste. E é nessa insistência, entre canto, repetição e tensão, que ele revela sua força expressiva e sua diferença radical em relação a outras formas de canção.
No Blues, a letra da música não serve (necessariamente) para conduzir uma história com começo, meio e fim, mas para permanecer dentro de um sentimento. Diferente da música popular baseada em narrativas lineares e refrões conclusivos, o Blues se organiza em ciclos que repetem e aprofundam estados emocionais, nascidos do improviso, do canto solitário, do lamento cotidiano e da resposta coletiva. Essa origem se reflete na ausência de resolução, no diálogo constante entre voz e instrumento, no uso do turnaround e na tensão harmônica permanente: o tempo não avança, não se resolve, não descansa — ele se dobra sobre si mesmo, e é nessa permanência que o Blues constrói sua força e sua singularidade.
O termo turnaround é um dos conceitos fundamentais da linguagem do Blues e, ao mesmo tempo, um daqueles nomes que muitos músicos usam sem nunca ter parado para pensar em sua origem. Entender de onde essa palavra vem — e por que ela foi adotada pela música — ajuda a compreender não apenas uma sequência de acordes, mas a própria lógica de funcionamento do Blues. Neste artigo, exploramos o significado literal do termo em inglês, seus usos fora do contexto musical e a forma como ele passou a designar, no Blues, o momento harmônico que faz a música “dar a volta” e recomeçar. Mais do que um detalhe técnico, o turnaround revela como língua, cultura e música se encontram na construção dessa tradição.
O Blues, enquanto gênero musical, é caracterizado por um conjunto de padrões e regras formais que lhe conferem identidade. Abordaremos aqui o modelo mais comum e tradicionalmente estabelecido: o Blues de 12 compassos. Essa estrutura se consolidou no início do século XX, coincidindo com o momento em que os cantores de Blues passaram a ter acesso ao violão. É fundamental notar que, durante o período da escravidão nos Estados Unidos, os africanos escravizados foram proibidos de portar e tocar qualquer instrumento musical de sua cultura original. Dessa forma, o canto, muitas vezes realizado durante o trabalho, era a única expressão musical permitida.
Segundo a Gestalt e outras linhas de compreensão do pensamento humano, o ser humano tem a necessidade de encontrar padrões. Isso faz parte da nossa psicologia evolutiva. Perguntas em aberto, situações incompletas e informações pela metade nos causam insegurança. Como um mecanismo de proteção, o cérebro tenta preencher aquilo que falta. É o que aparece em situações cotidianas, como o meme de que “fofoca contada pela metade quase mata o fofoqueiro do coração”, ou quando sabemos apenas um pedaço de uma história e acabamos fantasiando o resto.