Entender o catálogo da Sears é fundamental para compreender como o blues se espalha e se transforma a partir do acesso material aos instrumentos musicais. O blues nasce em contextos de pobreza, isolamento rural e poucas oportunidades, mas encontra no comércio por correspondência uma brecha inesperada para a circulação de violões, gaitas, cordas e outros objetos essenciais. Compreender esse termo é reconhecer que a história do blues também passa por infraestrutura comercial, logística e consumo popular, e não apenas por talento ou tradição oral.
Definição do termo
O catálogo da Sears refere-se aos catálogos de venda por correspondência da empresa Sears, Roebuck and Company, amplamente distribuídos nos Estados Unidos entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX. Esses catálogos permitiam que pessoas em áreas rurais comprassem produtos variados — incluindo instrumentos musicais — e os recebessem pelo correio.
Origem do termo
“Catálogo” vem do grego katalogos, significando lista organizada.
Tradução literal: catálogo da Sears = lista de produtos da empresa Sears.
Tradução contextual: no contexto do blues, o catálogo da Sears representa um meio de acesso remoto a instrumentos musicais para populações rurais e pobres, especialmente no Sul dos Estados Unidos.
Contexto histórico
A Sears se consolida como gigante do comércio por correspondência entre o final do século XIX e o início do século XX, período que coincide com a formação do blues. Em regiões rurais do Sul, onde lojas especializadas eram raras ou inexistentes, o catálogo tornava possível comprar violões, gaitas, banjos, cordas, palhetas e até fonógrafos. Esse acesso foi decisivo em um contexto marcado por segregação racial, pobreza e isolamento geográfico.
Contexto social e cultural
Para trabalhadores rurais negros, o catálogo da Sears funcionava como uma janela para o mundo. Ele permitia contornar barreiras locais de acesso, inclusive a discriminação em lojas físicas. Instrumentos relativamente baratos, especialmente gaitas e violões de fabricação industrial, tornaram-se mais comuns em comunidades onde antes a música dependia quase exclusivamente da voz. Isso ampliou as possibilidades sonoras do blues e fortaleceu sua dimensão instrumental.
Relação direta com a história do blues
O acesso a instrumentos via catálogo contribuiu para a padronização e a difusão do blues. Violões semelhantes começaram a circular em diferentes regiões, facilitando a troca de técnicas e repertórios. A gaita, pequena e barata, tornou-se instrumento ideal para músicos itinerantes. O catálogo da Sears ajudou a transformar o blues em música portátil, possível de ser tocada sozinho, em duplas ou em pequenos grupos.
O termo dentro da linguagem do blues
Embora o catálogo em si raramente apareça explicitamente nas letras, seu impacto está presente na própria sonoridade do blues. O uso recorrente de violão acústico, gaita e, mais tarde, instrumentos elétricos acessíveis reflete a democratização do acesso musical. O blues passa a incorporar timbres e técnicas que só se tornam possíveis porque os instrumentos estavam disponíveis fora dos grandes centros urbanos.
Exemplos históricos ou culturais
Diversos músicos de blues adquiriram instrumentos por meio de catálogos de venda por correspondência. Há registros históricos de artistas que compraram violões, gaitas e até guitarras elétricas dessa forma. O próprio modelo de guitarra elétrica associado ao blues urbano do pós-guerra passa, em parte, por essa cadeia de acesso indireto iniciada décadas antes com o comércio por catálogo.
Contexto final de síntese
O catálogo da Sears ocupa um lugar central na história do blues porque mostra que a música também depende de condições materiais de acesso. Ele explica como instrumentos chegaram a mãos que, de outra forma, dificilmente os teriam. Compreender esse termo é compreender o blues como linguagem construída não apenas pela tradição oral e pela experiência social, mas também por redes comerciais que, de forma indireta, permitiram que o som do blues se espalhasse, se padronizasse e ganhasse o mundo.