Fred Below foi um dos bateristas mais importantes da história do Chicago blues, responsável por moldar o som rítmico que acompanhou artistas como Muddy Waters, Little Walter e Chuck Berry. Em uma entrevista rara gravada em 1982, ele relembra sua formação musical em Chicago, sua entrada no blues elétrico e o funcionamento das sessões de gravação da Chess Records. Este artigo analisa essa conversa histórica e o que ela revela sobre a evolução da bateria no blues.

Uma conversa registrada em fita

Em 9 de julho de 1982, o jornalista musical Scott K. Fish fez uma ligação telefônica para Chicago. Do outro lado da linha estava Fred Below, baterista que, três décadas antes, havia ajudado a definir o pulso do blues elétrico gravado nos estúdios da Chess Records. A entrevista foi gravada de maneira simples: um microfone de sucção acoplado à linha telefônica e uma fita cassete girando sobre a mesa do entrevistador.

Naquele momento, Below tinha 55 anos. A grande era das gravações de Chicago já havia passado, mas sua influência continuava ecoando em incontáveis discos de blues e rock. Ele havia tocado com alguns dos músicos mais importantes da história do gênero — Muddy Waters, Little Walter, Sonny Boy Williamson, Chuck Berry, Elmore James — e participado de sessões que ajudaram a transformar o blues rural em um som urbano e elétrico.

A conversa foi conduzida por Scott K. Fish, jornalista que havia feito parte da equipe original da revista Modern Drummer e que dedicou grande parte de sua carreira a registrar histórias de bateristas. Ao longo de décadas, Fish acumulou fitas de entrevistas realizadas com músicos de diferentes gerações — muitas delas gravadas por telefone, em uma época em que esse método era comum no jornalismo musical.

Anos depois, ele começou a publicar esse material em seu site, Life Beyond the Cymbals, um arquivo pessoal onde disponibiliza entrevistas completas e documentos históricos relacionados à bateria e à música popular. Entre elas está a conversa com Fred Below, originalmente realizada para a Modern Drummer e publicada parcialmente na revista em 1983.

Fish observa que entrevistas gravadas dessa maneira raramente são perfeitas. Há pausas, digressões, momentos de conversa informal e trechos em que a gravação não captura claramente todas as palavras. Ainda assim, documentos como esse têm um valor particular: preservam algo que muitas vezes se perde na história da música — a memória direta dos músicos que estavam lá quando aqueles sons foram criados.

Ao longo da entrevista, Below fala de forma tranquila, lembrando episódios de sua juventude em Chicago, da formação musical que recebeu antes mesmo de tocar blues e do processo coletivo que moldava as bandas da época. Em um momento da conversa, ele resume uma ideia que atravessa toda a história do gênero:

“Você não pode tocar blues se ficar preso no papel. O blues é um sentimento.”

A frase parece simples, mas ajuda a explicar uma tensão central na trajetória de Fred Below. Antes de se tornar um dos bateristas mais importantes do blues elétrico, ele havia recebido uma formação musical rigorosa — estudando leitura, técnica e diferentes estilos musicais. O blues, quando finalmente entrou em sua vida, exigiria algo diferente.

Um garoto de Chicago entre big bands

Muito antes de tocar blues, Fred Below cresceu cercado por outra música.

Chicago, nas décadas de 1930 e 1940, era uma das cidades mais vibrantes da música afro-americana nos Estados Unidos. Grandes orquestras de jazz viajavam constantemente pelo país e passavam por teatros importantes do South Side, uma região que concentrava clubes, cinemas e salas de espetáculo frequentadas pela comunidade negra da cidade.

Foi nesse ambiente que Below começou a formar sua escuta.

Na entrevista, ele lembra que ainda era apenas um garoto quando começou a frequentar alguns desses lugares. Os nomes que cita são, hoje, parte da geografia histórica da música em Chicago.

“Eu ia ao Vendome, ao Regal Theater, ao Metropolitan… e via algumas das melhores big bands negras que vinham para Chicago o tempo todo.”

Naquela época, assistir a uma apresentação dessas não era apenas um show. Muitas vezes os teatros exibiam filmes, números musicais e apresentações ao vivo no mesmo programa. Era possível passar horas ali dentro — vendo diferentes espetáculos em sequência.

Below recorda que alguns desses momentos ficaram gravados em sua memória.

Entre os artistas que viu tocar estavam músicos que hoje definem a história do jazz da primeira metade do século XX. Ele lembra, por exemplo, de apresentações de Cab Calloway e de grandes orquestras que viajavam pelo país.

“Eu ia ao Regal Theater ver Cab Calloway e as grandes big bands — grupos que vinham de costa a costa.”

Uma das lembranças mais vívidas envolve o trompetista e líder de banda Billy Eckstine, cuja orquestra foi uma das incubadoras do bebop. Segundo Below, o último show da banda em Chicago acabou se transformando em um pequeno evento histórico para os estudantes da cidade.

Ele conta que o teatro estava tomado por alunos de diferentes escolas secundárias que haviam simplesmente abandonado as aulas para assistir à apresentação.

“Quando Billy subiu ao palco, eles acenderam as luzes e o lugar estava lotado de estudantes… todos tinham matado aula para estar ali.”

A banda de Eckstine reunia músicos que mais tarde se tornariam fundamentais para o bebop, entre eles Charlie Parker e Sarah Vaughan. Para um adolescente interessado em música, assistir àquele tipo de apresentação podia ser uma experiência transformadora.

Below ainda não pensava necessariamente em se tornar músico. Mas aquelas noites nos teatros de Chicago estavam, silenciosamente, construindo o repertório sonoro que moldaria sua geração.

O curioso é que, naquele momento, o blues ainda não fazia parte desse universo.

A música que cercava sua juventude era outra: big bands de swing, jazz de orquestra e música popular urbana. O blues — especialmente o blues elétrico que surgiria anos depois em Chicago — ainda estava fora do horizonte daquele garoto que atravessava a cidade para ouvir as grandes bandas do país.

A decisão de se tornar músico viria um pouco mais tarde, já dentro da escola — em um ambiente que, para muitos jovens negros de Chicago, funcionava como uma verdadeira incubadora de talentos musicais.

A escola que formou músicos em Chicago

A decisão de se tornar músico não surgiu diretamente nos teatros do South Side, mas dentro da escola.

Fred Below estudou na DuSable High School, uma instituição que ocupa um lugar especial na história da música afro-americana em Chicago. Fundada em 1935, a escola ficou conhecida por seu programa musical rigoroso e por um professor cuja influência se estenderia por gerações: Captain Walter Dyett.

Antes de chegar à bateria, Below começou em outro instrumento.

“Eu comecei com o clarinete, mas depois mudei do clarinete para a bateria.”

A mudança acabaria definindo sua trajetória.

Na DuSable, o ensino de música não era apenas uma atividade extracurricular. O programa dirigido por Dyett era conhecido por sua disciplina e pela ênfase na leitura musical, na técnica e na formação de músicos capazes de tocar em diferentes contextos profissionais.

Na entrevista, Below menciona diretamente o professor que o orientou nesse período.

“Foi lá que eu aprendi música.”

Captain Walter Dyett foi responsável por formar uma geração impressionante de músicos de Chicago. Ao longo das décadas, suas bandas escolares serviram como ponto de partida para inúmeros instrumentistas que depois entrariam para o jazz, o rhythm and blues e a música popular americana.

O método de ensino combinava duas coisas que raramente aparecem juntas: disciplina quase militar e exposição constante à música ao vivo. Dyett incentivava seus alunos a estudar técnica e leitura, mas também a ouvir músicos profissionais sempre que possível.

Para jovens como Fred Below, isso significava viver em um ambiente onde a música era parte cotidiana da vida escolar.

A escola também funcionava como ponto de encontro entre estudantes que mais tarde se tornariam músicos conhecidos. Na entrevista, Below menciona um desses colegas: o saxofonista Johnny Griffin, que viria a se tornar um dos grandes nomes do bebop.

Na adolescência, os dois circulavam pelo mesmo ambiente musical.

“Johnny Griffin já estava tocando… e eu andava com eles naquela época.”

Esse detalhe aparentemente simples revela algo importante sobre Chicago naquele período. Muitos dos músicos que definiriam o som da cidade cresceram nos mesmos bairros, frequentaram as mesmas escolas e ouviram as mesmas bandas.

Mas, apesar da formação musical que recebia, Below ainda estava longe de imaginar o caminho que seguiria mais tarde. O blues — a música com a qual seu nome ficaria para sempre associado — ainda não havia entrado em sua vida.

Antes disso, haveria outra experiência que marcaria profundamente sua trajetória: o serviço militar, que o levaria para fora dos Estados Unidos e o obrigaria a praticar bateria nas condições mais improváveis.

Guerra, exército e a prática improvisada

Fred Below se formou na escola em 1944, em meio ao contexto da Segunda Guerra Mundial. No ano seguinte, em 1945, entrou para o Exército dos Estados Unidos.

Para muitos jovens músicos da época, o serviço militar interrompia temporariamente qualquer plano artístico. Instrumentos ficavam para trás, bandas escolares desapareciam e a rotina passava a ser definida pela disciplina militar.

No caso de Below, porém, a música continuou a acompanhar sua vida — mesmo que de maneira improvisada.

Sem acesso a uma bateria completa, ele encontrou maneiras de continuar praticando.

“Eu praticava em forros de capacete, capacetes e caixas… qualquer coisa que estivesse ali.”

O detalhe pode parecer trivial, mas revela algo essencial sobre a formação de muitos músicos daquela geração. A prática não dependia necessariamente de um instrumento ideal. Qualquer superfície podia se transformar em um pad de treino.

Durante esse período, Below também teve contato com outros músicos que serviam no exército. Ele menciona ter encontrado o baixista Tommy Potter, conhecido por seu trabalho com Charlie Parker no início da era do bebop.

Esses encontros ocasionais reforçavam uma ideia que muitos jovens músicos carregavam naquele momento: mesmo longe das grandes cidades musicais, era possível continuar aprendendo.

Depois de algum tempo no serviço militar, Below foi enviado para o exterior. Parte de sua estadia ocorreu na Alemanha, onde acabou integrando uma banda militar.

Ali, novamente, a música voltaria a desempenhar um papel central.

Ele entrou para a 427ª banda do Exército, um conjunto responsável por apresentações oficiais e cerimônias militares. O repertório exigia leitura musical rigorosa e execução precisa — qualidades que sua formação escolar já havia desenvolvido.

Segundo Below, entrar na banda exigia habilidade técnica.

“Para entrar na banda, você tinha que ler. Não tinha moleza. Ou você lia, ou não entrava.”

A banda realizava apresentações formais para autoridades, diplomatas e eventos oficiais, o que exigia uma disciplina musical semelhante à das grandes bandas profissionais.

Mas o período no exército teve outro efeito importante: ele ampliou ainda mais a formação musical de Below. Durante esse tempo, ele estudou música de forma mais sistemática e continuou desenvolvendo sua técnica.

Quando finalmente retornou aos Estados Unidos, no final da década de 1940, ele carregava uma combinação incomum de experiências.

Por um lado, tinha crescido ouvindo big bands e swing nos teatros de Chicago.
Por outro, havia recebido formação musical disciplinada na escola e nas bandas militares.

Essa base técnica seria reforçada logo em seguida em um lugar que, para muitos bateristas da época, era quase uma universidade da percussão: a Roy C. Knapp School of Percussion, no centro de Chicago.

A Roy Knapp School of Percussion

Quando voltou a Chicago após o período no exército, Fred Below decidiu aprofundar sua formação musical. Para isso, ingressou em uma instituição que, na época, era considerada uma das mais importantes escolas de bateria dos Estados Unidos: a Roy C. Knapp School of Percussion.

Localizada no centro da cidade, a escola funcionava como um verdadeiro laboratório para percussionistas. Ali, jovens músicos estudavam técnica, leitura musical e repertórios variados, preparando-se para trabalhar em orquestras, bandas de jazz, estúdios de gravação ou conjuntos de música popular.

Na entrevista, Below descreve o ambiente da escola com certo entusiasmo.

Para ele, estudar ali era quase como frequentar uma faculdade de música. O programa exigia que os alunos revisassem constantemente os fundamentos técnicos, mesmo que já dominassem os rudimentos da bateria.

“Mesmo que você já soubesse os rudimentos, eles passavam tudo de novo, para garantir que você sabia o que estava fazendo.”

O objetivo era construir uma base sólida.

Os estudantes não ficavam restritos a um único estilo musical. Pelo contrário: o currículo exigia que dominassem diferentes linguagens rítmicas.

Segundo Below, os alunos tinham contato com vários tipos de repertório.

“Você tocava jazz, concerto, marchas, música latina e tudo mais.”

Essa abordagem ampla refletia uma visão comum entre educadores musicais da época. Um percussionista profissional deveria ser capaz de trabalhar em diferentes contextos — de orquestras sinfônicas a bandas de dança, passando por estúdios de gravação e apresentações ao vivo.

A Roy Knapp School também incentivava os alunos a desenvolver uma compreensão mais ampla da música. Para isso, muitos estudantes aprendiam um segundo instrumento.

No caso dos bateristas, Below lembra que o instrumento complementar frequentemente era o baixo.

“Todo baterista tinha que ter um segundo instrumento — que era o baixo. Isso te dava uma ideia de acordes e da construção da música.”

Outro aspecto importante da escola era a proximidade com músicos profissionais. Grandes bateristas e líderes de bandas que passavam por Chicago frequentemente visitavam o local, conversavam com os estudantes e, às vezes, ofereciam ingressos para apresentações na cidade.

Below lembra que muitos alunos eram incentivados a assistir apresentações de grandes bandas nos teatros de Chicago.

“Eles queriam que você visse aquilo acontecendo de verdade.”

Era uma forma de conectar o aprendizado técnico com a prática real da música.

Essa formação ajudou a desenvolver em Below uma habilidade que mais tarde se tornaria fundamental em sua carreira: a capacidade de se adaptar rapidamente a diferentes estilos musicais.

Mas, curiosamente, havia um tipo de música que ainda não fazia parte de seu repertório.

Apesar de toda essa formação técnica, o blues — especialmente o blues elétrico que começava a surgir em Chicago — ainda era algo relativamente distante de seu universo musical.

Quando finalmente entrou em contato com essa música, ele percebeu que estava diante de algo que não se encaixava completamente nas regras que havia aprendido.

O encontro com o blues

Quando Fred Below voltou a Chicago no final da década de 1940, trazia consigo uma formação musical incomum para um baterista que viria a trabalhar no blues.

Ele havia estudado leitura musical, técnica de percussão, diferentes estilos de repertório e tocado em bandas militares que exigiam precisão quase orquestral. Em teoria, estava preparado para tocar praticamente qualquer tipo de música.

Mas o blues que encontrou em Chicago era outra coisa.

Na entrevista, ele lembra que seu primeiro contato com aquela linguagem foi, ao mesmo tempo, surpreendente e desafiador.

“Eu achava que sabia música o suficiente para tocar qualquer coisa. Mas ali havia um tipo de música que eu nunca tinha ouvido.”

O que Below encontrou não era apenas um novo repertório, mas uma forma diferente de organizar a música. O blues urbano que se consolidava na cidade naquela época — tocado em clubes, bares e pequenas casas de espetáculo — seguia regras próprias.

Muitos músicos que tocavam esse estilo não tinham formação musical formal. Aprendiam observando outros músicos, tocando em conjunto e desenvolvendo um senso rítmico que vinha mais da experiência coletiva do que da leitura de partituras.

Para alguém com o tipo de formação técnica que Below havia recebido, aquilo representava uma mudança de perspectiva.

Na entrevista, ele sugere que o blues exigia outro tipo de sensibilidade musical. Em vez de seguir arranjos detalhados ou estruturas rigidamente escritas, a música era construída no momento da performance.

“Você não pode tocar blues se ficar preso no papel. O blues é um sentimento.”

Essa frase resume uma tensão interessante presente na trajetória de Below. Ele vinha de um ambiente onde a música era ensinada de forma sistemática, com métodos e exercícios cuidadosamente estruturados. O blues, por sua vez, era transmitido principalmente pela prática.

Isso não significava que os músicos de blues ignorassem completamente a técnica ou a teoria musical. Mas o centro da música estava em outro lugar: no diálogo entre os músicos, na interação rítmica e na capacidade de responder rapidamente às ideias que surgiam durante a execução.

Para Below, adaptar-se a esse universo significou usar sua formação de uma maneira diferente.

Em vez de aplicar rigidamente o que havia aprendido na escola, ele começou a utilizar sua técnica para reforçar aquilo que os outros músicos já estavam fazendo — ampliando as ideias rítmicas que surgiam na banda e dando maior estabilidade ao groove.

Esse processo acabaria definindo seu papel na história do blues de Chicago.

Nos anos seguintes, Below se tornaria um dos bateristas mais requisitados nos estúdios da cidade, participando de gravações que ajudariam a estabelecer o som do blues elétrico e, indiretamente, influenciariam o nascimento do rock and roll.

As sessões de gravação e o som do Chicago blues

Quando Fred Below começou a tocar blues regularmente em Chicago, a cidade vivia um momento decisivo. O blues que havia surgido nas plantações do sul dos Estados Unidos estava sendo transformado em algo novo: uma música elétrica, urbana e cada vez mais associada aos estúdios de gravação.

No centro desse processo estava a Chess Records, gravadora que, a partir do final dos anos 1940, se tornaria um dos principais polos da música negra nos Estados Unidos. Foi ali que muitos dos artistas que definiriam o Chicago blues registraram suas gravações mais importantes.

Below acabou se tornando um dos bateristas presentes nesse ambiente.

Na entrevista, ele menciona vários músicos com quem gravou durante esse período. A lista inclui alguns dos nomes mais importantes da história do blues e do rhythm and blues.

Entre eles estavam Muddy Waters, Elmore James, Ruth Brown e Chuck Berry.

O trabalho em estúdio naquela época era intenso. As gravadoras buscavam produzir o maior número possível de gravações, e os músicos frequentemente participavam de várias sessões em sequência.

Below descreve esse ritmo com certa naturalidade.

As gravações aconteciam rapidamente, muitas vezes com pouco tempo de preparação. Os músicos entravam no estúdio, experimentavam algumas ideias e registravam a música ali mesmo.

Segundo ele, o processo era quase contínuo.

“Eu gravei com tantos deles… as coisas vinham uma atrás da outra.”

Isso ajuda a explicar por que muitos bateristas daquele período aparecem em tantas gravações diferentes. Em vez de trabalhar exclusivamente com uma única banda, músicos como Below participavam de diversas sessões, acompanhando artistas distintos conforme as necessidades da gravadora.

Esse modelo de trabalho também contribuía para criar um certo som coletivo.

Embora cada artista tivesse sua identidade própria, os músicos de estúdio compartilhavam experiências, ideias rítmicas e maneiras de organizar o groove. Ao longo do tempo, esse processo ajudou a consolidar o que hoje reconhecemos como o som característico do Chicago blues.

Para Below, essa versatilidade era uma consequência direta de sua formação musical. Ele havia aprendido a tocar jazz, música de concerto e outros estilos antes mesmo de entrar no blues.

Isso lhe permitia transitar entre diferentes contextos musicais.

“Eu conseguia tocar jazz e conseguia tocar blues… então podia tocar praticamente qualquer coisa.”

Mas, apesar dessa formação ampla, a música que definia aquelas sessões de gravação não era construída a partir de arranjos complexos ou partituras detalhadas.

Na prática, o que acontecia dentro do estúdio era algo muito mais próximo de uma conversa musical entre os integrantes da banda. É esse processo que Below descreve ao falar sobre seu trabalho com um dos músicos mais importantes do Chicago blues: Little Walter.

Little Walter e a música como cooperação

Entre os muitos músicos com quem Fred Below trabalhou, um ocupa um lugar especial em suas lembranças: o gaitista Little Walter.

Walter Jacobs — seu nome de batismo — havia revolucionado a maneira de tocar gaita no blues ao amplificar o instrumento e utilizá-lo com a mesma intensidade sonora das guitarras elétricas. Nos anos 1950, ele se tornou um dos artistas centrais da Chess Records e um dos líderes de banda mais influentes do Chicago blues.

Na entrevista de 1982, Below fala dele com admiração.

“Ele era um dos melhores gaitistas que eu já conheci.”

Mas o elogio não se limita à habilidade técnica. Para Below, Little Walter teve um papel importante ao ajudar a dar visibilidade a um tipo de músico que, até então, raramente ocupava o centro do palco.

Segundo ele, o sucesso de Walter abriu espaço para que outros harmoniqueiros fossem reconhecidos.

“Ele tornou possível para muitos gaitistas realmente serem reconhecidos na minha época.”

Below também lembra das turnês que fez com a banda.

Naquele período, os grupos de blues viajavam constantemente pelos Estados Unidos, tocando em clubes, teatros e salões de dança. A banda de Little Walter percorreu o país de norte a sul e de leste a oeste, levando o som do Chicago blues para públicos cada vez maiores.

Mas o aspecto mais interessante do relato aparece quando ele descreve como as músicas eram construídas dentro da banda.

Diferentemente de muitos contextos musicais em que os arranjos são definidos previamente, o trabalho naquele grupo era profundamente colaborativo.

Segundo Below, as ideias surgiam durante o próprio processo de tocar.

“Era uma coisa cooperativa… como um encontro de mentes.”

Cada músico contribuía com sugestões — uma frase de guitarra, um padrão de bateria, uma ideia melódica na gaita. Se aquilo funcionasse, a música seguia adiante. Caso contrário, a banda simplesmente descartava a ideia e tentava outra.

“Se não encaixasse, a gente não usava — jogava fora e tentava de outro jeito.”

Esse processo revela algo essencial sobre o blues elétrico de Chicago.

Embora hoje muitas dessas gravações sejam tratadas como obras clássicas, no momento em que foram feitas elas surgiam de forma bastante espontânea. Os músicos experimentavam, reagiam uns aos outros e construíam a música coletivamente.

Em outras palavras, o blues que sairia daqueles estúdios não era apenas o resultado da visão de um único artista, mas de uma rede de músicos que compartilhavam experiências e influências.

Entre eles estava Fred Below, cuja bateria ajudaria a estabelecer o pulso rítmico que sustentaria algumas das gravações mais importantes da história do gênero.

E, como ele próprio sugere na entrevista, essa contribuição nasceu justamente do encontro entre dois mundos: a disciplina técnica de sua formação musical e a liberdade expressiva do blues tocado nos clubes de Chicago.

O blues que não se escreve

Ao longo da entrevista de 1982, Fred Below volta várias vezes a uma ideia central: o blues, como ele o encontrou em Chicago, não era uma música que nascia da partitura.

Para alguém que havia passado por escolas de música, bandas militares e programas de ensino rigorosos, essa constatação poderia parecer paradoxal. Mas Below explica que o funcionamento do blues era diferente de grande parte da música que ele havia estudado.

Segundo ele, muitos músicos que tocavam blues naquela época não pensavam em termos de escrita musical.

“O blues não era escrito. Não era uma coisa de você escrever no papel e sair tocando.”

O que guiava a execução era outra coisa: a interação entre os músicos, a experiência acumulada em apresentações e um senso coletivo de tempo e expressão.

Essa característica estava ligada às próprias origens da música.

Below sugere que o blues nasceu em um contexto em que a escrita musical não fazia parte da realidade de muitos dos músicos que o criaram. A transmissão acontecia de forma oral, passando de um músico para outro através da prática.

Nesse sentido, tentar reduzir o blues a uma partitura poderia significar perder algo essencial da música.

“Você não pode tocar blues se ficar preso no papel. O blues é um sentimento.”

Essa observação ajuda a explicar por que muitos músicos de blues desenvolveram estilos tão pessoais. Como não havia arranjos rígidos ou métodos formais padronizados, cada intérprete acabava moldando a música a partir de sua própria experiência.

Para Below, a solução foi encontrar um equilíbrio.

Sua formação técnica permitia compreender a estrutura musical — o tempo, a forma, o funcionamento das frases rítmicas. Mas, ao tocar blues, ele precisava deixar espaço para algo menos previsível: a dinâmica coletiva da banda.

Essa combinação acabou se tornando uma de suas marcas.

Nos estúdios e nos palcos, sua bateria funcionava como um ponto de equilíbrio entre dois universos. De um lado, a precisão adquirida em anos de estudo. De outro, a flexibilidade necessária para acompanhar uma música que se transformava constantemente a cada apresentação.

É nesse encontro entre técnica e intuição que muitos historiadores situam a importância de Fred Below na evolução da bateria do Chicago blues.

E é também isso que torna a entrevista de 1982 um documento tão interessante: ela mostra, nas próprias palavras do músico, como essas duas dimensões se encontraram na prática.

Um testemunho raro da história do Chicago blues

Entrevistas longas com músicos do blues da geração de Fred Below não são comuns.

Muitos artistas que participaram da formação do Chicago blues nos anos 1940 e 1950 não deixaram depoimentos detalhados sobre sua própria trajetória. A história desse período foi registrada principalmente através das gravações — discos que documentam o som da época, mas raramente explicam como ele foi construído.

É por isso que conversas como a que Scott K. Fish gravou em 1982 possuem um valor especial.

Fish, que havia começado a escrever para a revista Modern Drummer ainda nos anos 1970, dedicou grande parte de sua carreira a entrevistar bateristas. Ao longo do tempo, acumulou um arquivo significativo de conversas registradas em fita — muitas delas realizadas por telefone, uma prática comum no jornalismo musical da época.

Décadas depois, ele passou a disponibilizar parte desse material em seu site pessoal, Life Beyond the Cymbals, onde publica entrevistas completas, notas históricas e transcrições de conversas com músicos que ajudaram a definir o papel da bateria na música popular.

Em alguns casos, essas gravações representam os únicos registros extensos de determinados artistas.

Fred Below é um exemplo disso.

Embora seu nome apareça em dezenas de gravações importantes do blues e do rock and roll inicial, ele raramente foi entrevistado de forma detalhada. A conversa de 1982, portanto, funciona quase como um depoimento de memória — uma oportunidade de ouvir o próprio músico refletindo sobre sua formação, suas influências e o ambiente musical em que trabalhou.

Ao longo da entrevista, Below não tenta construir uma narrativa grandiosa sobre sua própria importância. Pelo contrário, suas respostas são diretas, frequentemente modestas, e muitas vezes voltam ao mesmo ponto: a música era resultado de colaboração.

As sessões de gravação, as bandas que percorriam o país e os encontros nos clubes de Chicago eram, segundo ele, espaços de troca constante entre músicos.

A bateria, nesse contexto, não era apenas um instrumento de acompanhamento. Ela ajudava a organizar o fluxo da música — sustentando o groove que permitia que guitarras, vozes e gaitas se movessem com liberdade.

Décadas depois, muitos desses padrões rítmicos se tornariam referência não apenas para o blues, mas também para o rock and roll que surgiria logo em seguida.

A entrevista de 1982 não pretende explicar tudo isso de maneira sistemática. Mas, ao registrar as lembranças de Fred Below sobre sua própria trajetória, ela oferece algo igualmente valioso: um olhar direto sobre o cotidiano musical de uma geração que ajudou a transformar o blues em uma das linguagens centrais da música do século XX.

E, em meio a essas lembranças, permanece a ideia que atravessa toda a conversa — uma observação simples, mas que talvez resuma melhor do que qualquer análise acadêmica o espírito daquela música:

o blues, como Fred Below aprendeu em Chicago, não era apenas uma forma musical.

Era uma maneira de sentir o tempo, de ouvir os outros músicos e de construir algo coletivo no momento da execução.

Fred Below antes do blues: um baterista formado no jazz

Aqui entra um ponto importante da entrevista que ajuda a contextualizar a carreira dele.

Fred Below deixa claro que não veio originalmente do blues. Ele se formou musicalmente dentro da tradição do jazz e do swing.

Isso é relevante porque explica algo que muitos historiadores apontam:

o baterista que ajudou a definir o groove do Chicago blues tinha formação jazzística sólida.

Ele próprio menciona que cresceu ouvindo e tocando jazz e que continuou tocando jazz mesmo depois de entrar no blues.

Em determinado momento ele afirma que conseguia transitar entre estilos.

“Eu conseguia tocar jazz e conseguia tocar blues… então eu podia tocar praticamente qualquer coisa.”

Esse detalhe ajuda a entender por que sua bateria soava diferente da de muitos músicos do blues anterior.

Ele trazia para o blues:

  • senso de swing

  • controle técnico

  • organização rítmica mais clara

O primeiro encontro com o blues de Chicago

Outro trecho interessante da entrevista é quando Below explica que não conhecia muito o blues quando era jovem.

Ele chega a dizer que, na infância, quase não tinha contato com a gaita — instrumento central no blues de Chicago.

Isso mostra uma coisa curiosa:

mesmo vivendo em Chicago, ele não estava inicialmente inserido no circuito do blues.

Seu universo musical era outro.

Quando finalmente começou a tocar blues, ele percebeu que estava lidando com uma linguagem musical construída de forma muito diferente.

Esse contraste entre:

  • formação musical formal

  • tradição oral do blues

é um dos eixos mais interessantes da história dele.

O papel da bateria no blues elétrico

Aqui entra um pequeno bloco analítico.

A entrevista não fala explicitamente sobre técnica de bateria o tempo todo, mas permite perceber algo importante.

Antes de bateristas como Fred Below, a bateria no blues tinha um papel mais discreto.

Com o surgimento do blues elétrico em Chicago:

  • bandas ficaram mais altas

  • guitarras amplificadas

  • gaita amplificada

A bateria precisou assumir uma função mais estruturante.

Below ajudou a estabelecer:

  • grooves de shuffle mais estáveis

  • backbeat mais claro

  • interação com o baixo e a guitarra.

O legado de Fred Below

Antes da conclusão, pode entrar um bloco de síntese.

Destacar que Fred Below participou de gravações fundamentais do blues e do rock inicial.

Entre os artistas com quem gravou estão:

  • Muddy Waters

  • Little Walter

  • Elmore James

  • Chuck Berry

Isso significa que o groove criado por ele aparece em discos que ajudaram a moldar:

  • o Chicago blues

  • o rhythm and blues

  • o rock and roll.


Quem é Scott K. Fish

Scott K. Fish é um jornalista musical norte-americano especializado em bateria e história da música popular.

Ele fez parte da equipe editorial da revista Modern Drummer, uma das publicações mais importantes do mundo dedicadas ao instrumento. Fish começou a colaborar com a revista nos anos 1970 e chegou a ocupar funções editoriais importantes dentro da publicação.

Durante décadas de trabalho como jornalista, ele realizou inúmeras entrevistas com bateristas de diferentes gerações, registrando conversas em fitas analógicas — muitas delas feitas por telefone.

Parte desse material foi publicada originalmente em revistas especializadas. Mais recentemente, Fish passou a disponibilizar entrevistas completas em seu site Life Beyond the Cymbals, onde mantém um arquivo de conversas históricas com músicos.

Algumas dessas gravações são especialmente valiosas porque representam um dos poucos registros extensos de certos bateristas, incluindo Fred Below.