A NaBeira Blues, liderada pelo casal de músicos e arte-educadores Tom e Fê Veras, é uma referência em Chicago Blues dos anos 50 que prioriza a "música de sentimento" e o improviso visceral sobre as fórmulas comerciais. Com uma trajetória consolidada em mais de 70 apresentações por bares, unidades do SESC e festivais desde 2019, a banda une a guitarra agridoce de Tom à voz assinatura de Fê Veras em uma jornada artística de catarse e cura emocional. Recentemente registrada em sessões ao vivo no prestigiado estúdio Space Blues sob a produção do premiado Alexandre Fontanetti, a NaBeira Blues resgata as raízes africanas e o legado de Koko Taylor, oferecendo um som autêntico que funciona como um "Mertiolate para as feridas da alma".

Para aqueles que buscam a síntese de uma trajetória esculpida na fronteira entre a dor e a redenção, este é o ponto de partida. A NaBeira Blues não é apenas uma banda, mas um projeto existencial conduzido pelo casal de músicos e arte-educadores Tom e Fê Veras.

Nascida em 2019 em meio a profundas transições pessoais, a NaBeira resgata a crueza do Chicago Blues dos anos 1950 — aquele instante seminal em que o lamento rural encontrou a eletricidade urbana, antes de ser diluído pelas fórmulas do rock e do pop. Com a assinatura inconfundível da voz de Fê Veras, cujo timbre raro e visceral emergiu apenas na maturidade dos 40 anos, e a guitarra agridoce de Tom Veras, o grupo propõe o que define como "música de sentimento".

Em março de 2026, após consolidarem sua autoridade em mais de 70 apresentações por bares, unidades do SESC e festivais, o projeto reafirma sua identidade original. O nome "NaBeira" — inspirado na filosofia de Kierkegaard sobre o homem no abismo da liberdade — traduz o espírito de um grupo que escolhe o improviso e a verdade sobre os hits comerciais.

Recentemente, a banda cristalizou sua sonoridade em sessões ao vivo no prestigiado estúdio Space Blues, com o produtor vencedor do Grammy Alexandre Fontanetti, capturando a essência de um som que funciona como um "Mertiolate para as feridas da alma": uma arte que arde para curar, provocando uma catarse que convida o público a emergir de alma lavada.

Este é o Blues em seu estado mais primitivo e honesto: um trem em constante movimento onde a vida, a psicologia e a música convergem em uma experiência única e irrepetível.

 

A Gênese na Beira do Abismo

O Blues, em sua essência mais honesta, não é um gênero que se escolhe por diletantismo; é um gênero que se impõe pela necessidade de traduzir o indizível. Para Tom e Fê Veras, a música não surgiu como um projeto de carreira planejado sob as luzes de um escritório de marketing, mas como uma resposta visceral a um período marcado por profundas adversidades e transições pessoais. Casados desde 2001, eles compartilhavam uma vida urbana em São Paulo, frequentando as mesmas casas de Blues desde os anos 90, sem saber que a música que ouviam separadamente — como os álbuns de Koko Taylor que Fê descobriu em uma viagem mística a São Thomé das Letras em 1995 — se tornaria, décadas depois, o alicerce de sua própria resiliência.

A voz de Fê Veras permaneceu em um estado de latência até os 43 anos. Ela era uma cantora de descoberta tardia, protegida por uma timidez que a fazia aceitar o desafio de cantar apenas sob uma promessa solene de Tom: a de que aquelas melodias jamais cruzariam o limiar da intimidade doméstica para o escrutínio público. Os ensaios iniciais, realizados na escola de música Art Viva, estendiam-se até as cinco da manhã, onde o som das guitarras se misturava a longas digressões sobre filosofia e psicologia. Foi nessa busca por uma linguagem própria que o nome NaBeira se manifestou, inicialmente através de uma ironia técnica. Em 2019, o casal enfrentava a dificuldade de encontrar um baterista que dominasse o shuffle — o balanço sincopado fundamental do gênero. Como o primeiro músico a acompanhá-los vinha das fileiras do punk rock, o som que produziam estava, nas palavras deles, sempre "na beira" do Blues.

O que começou como uma observação de repertório, contudo, encontrou eco imediato na filosofia existencialista. O nome foi adotado como uma referência ao "homem de Kierkegaard", aquele que vive na fronteira entre o precipício e a liberdade absoluta de possibilidades. Estar "na beira" deixou de ser sobre uma lacuna rítmica para tornar-se o estado permanente do casal, que encontrou no Blues o seu "Mertiolate para as feridas da alma": uma ferramenta para processar as cicatrizes e os baques que a existência impõe, transformando o que arde em cura.

O palco, inicialmente um território de hesitação, tornou-se o laboratório onde a vulnerabilidade era convertida em potência artística. A primeira apresentação pública aconteceu em dezembro de 2019, fruto de uma conversa casual sobre cães com a gerente de um bar no próprio quarteirão onde moravam. Naquela noite, Fê aceitou o microfone com a condição de permanecer quase invisível, sentada atrás da bateria. O repertório começava de forma árdua, com ela cantando a capela os versos iniciais de “I got a strange feeling”, de Buddy Guy — uma escolha técnica que Tom acreditava ser o gatilho necessário para destravar a força contida em sua voz. Naquele momento, eles ainda exploravam os limites dos agudos; o tempo provaria que a identidade da NaBeira residia na densidade dos graves e na entrega visceral que só a maturidade poderia conferir à interpretação do Chicago Blues.

A NaBeira Blues nascia, assim, como uma entidade orgânica e fluida. Mais do que uma banda convencional, apresentava-se como um "coletivo de encontros", um trem em constante movimento que, em sua trajetória, já atraiu quase 30 músicos parceiros, transformando cada show em uma experiência única, onde o imprevisto é abraçado como parte fundamental de uma arte que se materializa na troca de afetos e na validação das almas.

A Arqueologia do Sentimento e o Legado da Rainha

Se a gênese da NaBeira Blues foi moldada pelo imprevisto, a sua sonoridade é fruto de uma escolha estética deliberada e rigorosa. No vasto oceano do gênero, Tom e Fê Veras decidiram lançar âncora em um território específico: o Chicago Blues dos anos 1950. Trata-se do momento exato da transição — quando o lamento rural do Delta do Mississippi encontrou a eletricidade dos centros urbanos, antes que as distorções do Rock and Roll e as fórmulas do Pop diluíssem a crueza original da música negra norte-americana.

Para a NaBeira, esse recorte não é um exercício de nostalgia, mas de arqueologia cultural. Em um mercado saturado por hits repetitivos e atalhos neurais, o grupo faz uma "opção pelo difícil": recusam-se a tocar os sucessos comerciais que transportam o público para memórias afetivas prontas, preferindo mergulhá-lo em uma viagem sensorial inédita. O objetivo é a catarse, um estado onde o ritmo sincopado e as escalas que desafiam a visão eurocêntrica provocam uma conexão que transcende o mero entretenimento.

O coração dessa busca reside no empoderamento feminino, personificado na figura de Koko Taylor. A trajetória da "Rainha do Blues" — que chegou a Chicago com apenas 35 centavos no bolso e limpava casas antes de ser descoberta por Willie Dixon — serve como bússola para a identidade da banda. Dixon, o arquiteto do som de Chicago, viu em Koko o que o mundo precisava: uma voz feminina que ocupasse um espaço de poder em um cenário dominado por homens. Na NaBeira, essa influência materializou-se no espetáculo Tributo a Koko Taylor, estreado em novembro de 2022, onde o grupo resgatou clássicos como "I’m a Woman" e "Wang Dang Doodle".

A assinatura desse projeto é, indiscutivelmente, a voz de Fê Veras. Dona de um timbre raro entre as cantoras brasileiras, sua interpretação não busca a perfeição técnica estéril, mas a verdade visceral. Após décadas de latência, sua arte emergiu com a força de quem não apenas canta o Blues, mas o utiliza como ferramenta de processamento existencial. Se no início a aposta era nos agudos, o amadurecimento nos palcos revelou que sua real potência reside nos graves profundos e nos drives que parecem ecoar as dores e alegrias mais ocultas da alma humana.

O som da NaBeira é, portanto, um organismo vivo que se manifesta sem recursos digitais ou pirotecnias. A verdade escorre pelos instrumentos vintage e pela batida que nunca é "retinha", mas que carrega a malemolência e a síncope da diáspora africana. É uma experiência de "música de sentimento" contraposta à "música comercial": enquanto esta última é padronizada para o lucro e o consumo rápido, a NaBeira busca a aura da performance única, onde cada improviso é um registro irrepetível do estado de espírito dos músicos e da audiência.

Das Cicatrizes ao Espaço Sagrado do Som

A trajetória da NaBeira Blues não é uma linha reta, mas um gráfico de intensidades que oscila entre a penumbra da introspecção e a claridade do palco. Em um percurso que Tom e Fê Veras descrevem como um "trem em constante movimento", o grupo atravessou fases que foram muito além da mudança de nomes; foram transmutações de espírito. Após consolidarem uma autoridade visceral na noite paulistana, realizando mais de 70 apresentações em redutos que variam de bares discretos a palcos imponentes como o do Whiplash — onde a casa lotada testemunhou a maturidade de um som que já não pedia licença para existir —, o casal sentiu a necessidade de capturar essa energia em um ambiente de preservação.

Essa busca levou-os ao estúdio Space Blues, um santuário sonoro sob a batuta de Alexandre Fontanetti, produtor cujos três Grammys atestam um ouvido treinado para a excelência. A experiência não foi pensada como uma produção asséptica, mas como um laboratório de autoconhecimento. Gravando sessões inteiramente ao vivo, ora com a potência de um quinteto, ora com o brilho de uma seção de metais, a banda buscou entender como a crueza da "Beira" soava sob as lentes de um ambiente controlado. Foi um momento de revelação: o estúdio serviu como um espelho técnico para o que eles haviam construído no "ensaio no palco", revelando que a verdade do Blues reside no improviso e na síncope que sobrevivem mesmo ao silêncio das salas acústicas.

Enquanto o primeiro EP de músicas autorais ganhava forma, com composições densas como "Eu tenho o Blues" — uma reflexão lírica sobre o abismo entre o sucesso material e a verdade do sentimento —, a vida impunha novas camadas de profundidade ao projeto. Em dezembro de 2025, a formatura de Fê Veras em Psicologia conferiu um novo alicerce intelectual à banda. O Blues, que outrora servira como um "Mertiolate para as feridas da alma" em momentos de transições pessoais dolorosas, passava agora a ser compreendido também pela lente acadêmica da saúde mental e do desenvolvimento humano.

Em março de 2026, após experimentarem nomenclaturas que enfatizavam a faceta pedagógica ou a diversidade rítmica, Tom e Fê decidiram por um retorno definitivo às origens. A decisão de reassumir o nome NaBeira Blues não foi um retrocesso, mas um ato de maturidade artística. Eles compreenderam que nomes como Veras Blues Band ou Boogie Blues Brasil descreviam o que eles faziam, mas apenas NaBeira traduzia quem eles eram. Estar "na beira" deixou de ser uma circunstância técnica de 2019 para se tornar o manifesto de uma banda que escolhe viver na fronteira entre o planejado e o imprevisto, celebrando a liberdade absoluta de quem não teme o abismo, pois aprendeu a fazer dele a sua melodia mais honesta.

A Dinâmica de um Trem em Constante Movimento

Para quem observa a NaBeira Blues de relance, a banda pode parecer uma entidade de contornos indefinidos, mas há nela uma arquitetura invisível e rigorosa. O projeto não se submete à estrutura convencional de um grupo com formação fixa; ele opera, em vez disso, como um "coletivo de encontros". No epicentro dessa força gravitacional estão Tom e Fê Veras, o núcleo inabalável que atrai para sua órbita o que chamam de "parceiros de alma". Ao longo de sua trajetória, o palco da NaBeira já foi ocupado por quase 30 músicos diferentes. Essa rotatividade não é fruto do acaso, mas de uma filosofia que privilegia a energia do momento e a disponibilidade afetiva sobre a burocracia dos ensaios exaustivos.

A NaBeira é, por definição, um "trem em constante movimento". Há uma mística deliberada no ato de "ensaiar no palco". Com exceção de projetos estruturados como o Tributo a Koko Taylor, a maioria das apresentações da banda acontece sem um roteiro engessado. É o Blues ocorrendo em sua forma mais primitiva e honesta: uma conversa em tempo real entre músicos que, muitas vezes, acabaram de se conhecer sob as luzes da ribalta. Nessa dinâmica, o improviso não é apenas um recurso técnico, mas a própria matéria-prima da performance. Cada show torna-se uma sessão única, tingida pelas personalidades e humores dos músicos presentes, garantindo que nenhuma noite seja a repetição da anterior.

Essa fluidez permite que a NaBeira se adapte a qualquer geografia urbana. Do trio minimalista em bares discretos — onde Fê assume o cajon para suprir a ausência de espaço para uma bateria — até formações robustas com teclados, gaita e seções de metais que evocam a potência das grandes bandas de Chicago, o grupo mantém sua assinatura visceral. É uma música que escorre sem filtros digitais, ancorada em instrumentos vintage e na entrega emocional que desafia a padronização do mercado fonográfico moderno.

Em março de 2026, essa dinâmica ganha uma nova camada de propósito. O projeto inicia uma fase de integração pedagógica, onde o palco deixa de ser apenas um espaço de exibição para se tornar um ambiente de aprendizado vivo. O plano é convidar alunos da escola de música para participarem de determinadas formações, unindo o rigor da educação musical à crueza da experiência artística real. Não se trata de um recital escolar, mas de lançar o aprendiz "na beira" do abismo das possibilidades, ensinando-o a lidar com o imprevisto e a síncope que só o Blues autêntico proporciona. Assim, a NaBeira Blues consolida-se não apenas como uma banda, mas como um ecossistema onde a vida, o ensino e a arte convergem em um mesmo compasso improvisado.

O Mapa e o Método – Da Intimidade dos Bares ao Vigor dos Grandes Palcos

Se a jornada da NaBeira Blues é pautada por uma busca existencial, sua operação no mundo real é um exercício de precisão e versatilidade. Observar o roteiro de apresentações do grupo é, de certa forma, ler um mapa afetivo da cidade de São Paulo e arredores. Em pouco mais de quatro anos, o projeto deixou sua marca em mais de 70 ocasiões, habitando desde a penumbra acolhedora do Bar do Urso e do Soul Hops, no Itaim Bibi, até a sofisticação acústica do Teatro Décio de Almeida Prado e o vigor transbordante de palcos como o do Whiplash e do Itaim Fest.

Essa onipresença geográfica só é possível graças a uma estrutura de formação flexível, desenhada para que a essência do Blues nunca seja sacrificada pela limitação do espaço físico. A NaBeira não é uma unidade rígida, mas um organismo que se adapta:

  • O Trio Essencial: Nos ambientes onde o espaço é um luxo, Fê Veras abdica da bateria e assume o cajon, unindo sua voz à guitarra visceral de Tom e ao pulsar de um baixo elétrico. É o Blues em sua forma mais nua e direta.
  • O Quarteto Clássico: A espinha dorsal do projeto, composta por voz, guitarra, baixo e bateria, entregando a sonoridade padrão do Chicago Blues.
  • A Grande Formação (Septeto e além): Para teatros e festivais, o "trem" ganha vagões de peso, incorporando piano, gaita, saxofone, trompete, trombone e backing vocals. Foi nessa configuração, explorando as texturas dos metais, que o grupo registrou suas sessões no estúdio Space Blues, provando que o improviso da "beira" ganha contornos épicos quando amparado por uma instrumentação robusta.

Para garantir que a "viagem emocional" proposta não se perca em ruídos, a banda mantém um rigor técnico que é, em si, um compromisso com a arte. O som da NaBeira rejeita a artificialidade digital; ele exige a saturação dos amplificadores de guitarra e baixo, a microfonação cuidadosa de cada peça da bateria e a clareza dos pedestais que sustentam os metais e as vozes. É uma engenharia a serviço do sentimento: o equipamento existe para que o timbre — aquele elemento "agridoce e rasgado" da guitarra de Tom e a "força incomum" da voz de Fê — chegue ao público sem filtros que diluam sua verdade.

 

Os nomes de banda e fases

Ao longo de sua caminhada, a NaBeira Blues não mudou de nome por meras estratégias de marketing, mas por necessidades de tradução de seus próprios momentos internos. Cada batismo funcionou como uma casca necessária para o amadurecimento do que viria a ser a identidade definitiva do projeto em 2026.

  • NaBeira Blues (A Gênese, 2019): O nome original surgiu de uma intersecção entre o acaso técnico e o abismo filosófico. Inicialmente, era uma brincadeira sobre a incapacidade do primeiro baterista, oriundo do punk rock, de executar o shuffle tradicional; o som estava, literalmente, "na beira" do Blues. Contudo, Tom e Fê logo elevaram o termo à categoria existencial, adotando o conceito de Søren Kierkegaard sobre o homem na beira do abismo metafórico da liberdade, refletindo o estado de "aurora artística" e as transições profundas que viviam.

  • Veras Blues Band (A Consolidação Pedagógica): Esta fase representou o momento de união pública do casal como arte-educadores e músicos. O nome carregava a assinatura da família e sinalizava uma transição para o uso da música como ferramenta de psicologia e autoconhecimento, onde o Blues servia de pano de fundo para atividades terapêuticas e aceitação de potenciais expressivos. Era um nome que descrevia o que eles faziam e a autoridade que construíam no ensino musical.

  • Boogie Blues Brasil (A Expansão Rítmica): Adotado em momentos de maior diálogo com grandes festivais, como o Itaim Fest, este nome refletia a diversificação do repertório. Era a face do projeto que abraçava a malemolência brasileira e pitadas de Jazz, Boogie e Soul, buscando uma sonoridade mais rítmica e solar para os encontros nas ruas e praças paulistanas.

  • NaBeira Blues (O Retorno Definitivo, março de 2026): O retorno à origem marca a maturidade artística total. Em março de 2026, o casal compreendeu que, enquanto os nomes anteriores focavam em funções profissionais, apenas NaBeira traduzia quem eles são. O resgate simboliza a aceitação de que estar "na beira" — entre o planejado e o improviso, entre a dor e a cura — não é uma fase passageira, mas a essência permanente de sua verdade visceral e de seu "trem em constante movimento".

O roteiro de apresentações da NaBeira Blues desenha uma verdadeira cartografia afetiva e urbana de São Paulo, estendendo-se por mais de 70 apresentações públicas que transformaram a cidade em um palco de experimentação constante. A jornada teve seu marco zero no Bar do Urso, no Itaim Bibi, um local que se tornou quase uma extensão da casa de Tom e Fê Veras devido à proximidade geográfica e à conexão pessoal com a gerência. A partir desse epicentro doméstico, a banda expandiu sua presença para redutos fundamentais da cultura cervejeira e do blues na capital, como o COA Bar y Parrilla em Moema — palco de frequentes "visitas" policiais motivadas pelo som alto —, o Soul Hops, o Soul Botequim e o Sahara Craft Beer no Brooklin. Esses bares não foram apenas locais de exibição, mas laboratórios onde a banda praticou sua mística de "ensaiar no palco", forjando sua identidade no improviso diante do público.

Para além do circuito boêmio, a NaBeira Blues ocupou espaços de relevância institucional e cultural, onde o projeto pôde manifestar sua faceta pedagógica e histórica. O grupo tornou-se uma presença recorrente no Itaim Fest, participando de múltiplas edições que serviram como vitrine para sua evolução artística. Momentos de consolidação técnica e cênica ocorreram no Teatro Décio de Almeida Prado (Centro Cultural da Diversidade), onde estrearam o ambicioso Tributo a Koko Taylor, e na Casa de Cultura Chico Science. A itinerância do projeto também alcançou ambientes de troca intelectual e literária, como a Biblioteca Anne Frank e a Livraria Patuscada, durante a realização do minicurso "História e Estórias do Blues", integrando música e narrativa em um formato mais íntimo.

A banda demonstrou uma versatilidade ímpar ao levar a crueza do blues para geografias sociais diversas. Apresentaram-se no Centro Dia Nelson Mandela, em Heliópolis, em uma performance voltada para a terceira idade, e ocuparam o espaço público em locais como a Praça Inácio Pereira e o Buena Vista Moto Clube. O mapa de shows ultrapassou as fronteiras da capital, registrando passagens pelo Demokrata Brew Pub em Santo André e o SOS Beer em Guarulhos. De locais sofisticados como o Whiplash e o Marilyn Brewhouse a sessões ao ar livre como a Pamplona Sessions, a NaBeira Blues consolidou-se como um "trem em constante movimento", habitando qualquer espaço onde a "música de sentimento" pudesse encontrar eco na alma dos presentes.

Contratar a NaBeira Blues não é apenas agendar um show, mas convidar um fragmento vivo da história da música negra para ocupar um espaço. Seja no formato itinerante do minicurso "História e Estórias do Blues" ou em uma performance de palco, o compromisso é com a entrega absoluta. Como o casal Veras costuma dizer, o Blues não é uma música que se toca da mesma forma duas vezes; ele depende do estado de espírito, da temperatura e da energia de quem ouve. No final de cada sessão, o que resta não é apenas a lembrança de notas musicais, mas a sensação de que, por algumas horas, todos os presentes estiveram seguros na beira do abismo, devidamente curados pelo som que arde.